Artigo – Paulo Skaf – A pauta da indústria é a pauta do Brasil

A história da indústria no Brasil é uma história de ação, coragem e superação de obstáculos. Com muito esforço, o país construiu, ao longo de mais de 50 anos, uma indústria forte e diversificada. Lamentavelmente, porém as grandes conquistas do setor industrial brasileiro estão hoje ameaçadas pela perda de competitividade, pela burocracia, pelo peso dos impostos e dos juros altos, pelo baixo crescimento da economia.  Vivemos num ambiente negativo, com redução contínua do peso do setor no PIB nacional.

Todos nós, brasileiros, desejamos a retomada do crescimento sustentável no país, que significará mais produção, mais emprego e distribuição de renda. Mas é preciso ficar claro que isso não ocorrerá sem a necessária recuperação da indústria e de sua capacidade competitiva. Não há, no mundo, experiências de países que se tornaram ricos e desenvolvidos sem uma indústria fortalecida.

No Brasil, o crescimento do setor industrial é hoje um passaporte para o desenvolvimento econômico e social. A indústria tem enorme importância não apenas no avanço de outros setores, mas do país como um todo. Só não vê isso quem não quer.

Não se pode desconhecer, por exemplo, o importante papel da indústria de transformação como maior dinamizadora da economia: para cada R$ 1 produzido por ela, são gerados mais R$ 1,13 de produção pelos demais setores. O setor industrial é o maior realizador de investimentos produtivos do setor privado, respondendo por cerca de 30% do total investido.

Nós, da indústria, somos também os maiores geradores de massa salarial do setor privado e oferecemos os melhores e mais qualificados empregos da economia. Respondemos por mais de 22% da massa salaria total do emprego formal, equivalente a R$ 215 bilhões em 2013. O ganho salarial médio dos nossos trabalhadores e sua taxa de formalização (ou seja, trabalhadores com carteira de trabalho assinada e cobertos pelo seguro social) são também maiores do que os do restante da economia.

Entre os grandes setores empregadores, é ainda a indústria quem paga os melhores salários, conforme aumenta o grau de escolaridade dos trabalhadores.  Tudo isso sem mencionar a quantidade relevante de empregos indiretos criados e mantidos na economia por conta da interação de outros setores com a atividade industrial, que compra insumos dos setores agrícolas, materiais da indústria da construção e contrata numerosos serviços.

Num ciclo virtuoso de crescimento, a instalação de empresas industriais atrai outras empresas, criando e fortalecendo as cadeias produtivas. E, quanto maior o adensamento e a complexidade dessas cadeias, maior será sua interação com os próprios setores industrias e com as outras áreas da economia – e maior será também o crescimento e o desenvolvimento econômico.

A indústria, com sua complexidade e com o encadeamento das diversas etapas de produção, abriu também grande espaço às inovações, que possibilitam transferência de conhecimentos, desenvolvimento de novas tecnologias e modernização. É hoje a principal produtora e difusora de inovações no setor privado, responsável por 70% dos gastos com pesquisa e desenvolvimento (P&D) e 77% dos demais gastos com inovação.

As indústrias do país têm sido também a mais importante fonte de arrecadação tributária, contribuindo com 1/3 do que é recolhido, a despeito de responder por apenas 13% do PIB.

A carga tributária excessiva, a burocracia, os custos elevados, as dificuldades de infraestrutura, o crédito caro, os juros altos e o câmbio vêm estrangulando a capacidade produtiva e a competitividade da indústria brasileira. Apesar da nossa tenacidade, perdemos espaço nos mercados e estamos sendo derrotados numa corrida mundial. Na maratona do comércio internacional, disputada por atletas leves e rápidos, o produto manufaturado brasileiro é um competidor que carrega nas costas uma mochila pesada, cheia de pedras. Uma competição a cada dia mais difícil.

Trabalhar na retirada das pedras do caminho para que seja possível recuperar a competitividade do país não é pedir favores. Trata-se simplesmente de garantir isonomia. Livre de suas amarras, o setor industrial pode ser motor do crescimento da economia na decolagem rumo a um país mais desenvolvido e mais justo para todos os brasileiros. A pauta da indústria é a pauta do Brasil.

*Paulo Skaf é presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp) e do Sebrae-SP.

Fonte: FOLHA DE S.PAULO – OPINIÃO – 22/12/2014